Paulo Nogueira: "Aqueles liurais tinham-me dito que iam desfazer um pacto de sangue"

 

“Naquela segunda feira de manhã ( 20 de Maio 2002) , testemunhei um acontecimento impar para mim: no Palácio do Governo, em Díli, uma delegação de liurais entregava uma bandeira de Portugal a Jorge Sampaio, então Presidente da República Portuguesa, recebendo em troca um exemplar da Constituição da República Portuguesa. E aqueles liurais tinham-me dito que iam àquela cerimonia desfazer um pacto de sangue que diziam ter sido celebrado séculos antes por representantes dos reinos de Timor e de Portugal. Sem aquela cerimonia , tinham argumentado, os seus povos não se sentiriam verdadeiramente independentes.

 



(…) O tratado da bandeira de 1703 terá sido celebrado com “juramento de sangue” , constituindo , por isso, um “pacto sagrado”.  (…) Para alguns timorenses, não sei quantos, a razão da cerimonia bilateral da manhã de 20 de Maio de 2002 foi o fim dessa aliança sagrada. Para mim também. Na memória de alguns timorenses , o tratado da bandeira faz parte da sua História e tinha um valor mítico que foi preciso anular para que se sentissem livres, para serem independentes. Naquela cerimónia simbólica , no Palácio colonial, substituíram a descolonização que nunca tiveram pela exoneração de uma aliança em que tinham ficado sozinhos. “

 

 

Texto: Paulo Nogueira in " Por Timor - Memórias de dez anos de Independência" - Sónia Neto. Maio 2012. Fotos gentilmente cedidas por Paulo Nogueira.