“Julgar crimes da ocupação indonésia é desafio da sociedade civil global”



O coordenador da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação, criada em 2001 para investigar o período de ocupação de Timor-Leste pela Indonésia, disse hoje que “julgar os crimes” cometidos entre 1974 e 1999 é “um desafio da sociedade global”.

Patrick Walsh, que falava em Paris na cerimónia evocativa da restauração da independência de Timor-Leste, há dez anos, que a Assembleia Nacional francesa acolheu, considerou que “conseguir que sejam que sejam levados a tribunal os crimes que foram cometidos durante a ocupação indonésia de Timor-Leste é um desafio da sociedade civil global porque em causa estão crimes contra a humanidade”.

“O relatório que entregámos, e que tem 2.800 páginas, não deixa margem para dúvidas. E não é o único. Contaram-se, durante esse período, cerca de 100 mil civis mortos, verificou-se uma sistemática violação do direito internacional e também dos direitos humanos, nomeadamente violência sexual contra mulheres, detenções arbitrárias e deportações”, afirmou.

O Governo indonésio e o seu poder militar, defendeu, “foram os responsáveis”. Além disso, “há testemunhos de alguma cooperação de outros Estados, como a França ou a Austrália, quer porque fecharam os olhos à situação, quer porque venderam equipamento militar ou armas à Indonésia”.

No entanto, acrescentou, “até aqui, nenhum desses atores pediu desculpa ou assumiu responsabilidades em relação ao que aconteceu”.

Por outro lado, prosseguiu, “nem José Ramos-Horta, ex-Presidente da República de Timor-Leste, nem Taur Matan Ruak, que hoje tomou posse como chefe de Estado, entendem que deve pressionar-se a Indonésia a fazer justiça ou levar a questão a um tribunal internacional. ‘É preciso olhar para o futuro porque não temos tempo para olhar para trás’, disse o novo Presidente”.

“Eu acho que a história tem tendência para se repetir. Por isso, as pessoas precisam de saber o que aconteceu. Os crimes precisam de ser julgados. Para isso, tem que criar-se uma base de apoio. E também para que continuemos vigilantes”, concluiu.

Na cerimónia, interveio também Frederic Durand, geógrafo e presidente da Associação França-Timor, que mostrou retratos do país, dez anos depois da restauração da independência: um país “que levou a cabo um grande esforço de reconstrução”, que tem “um povo com sede de aprender” e que “tem uma magia inexplicável”.

A cerimónia, que juntou mais de 100 pessoas, foi organizada por iniciativa da Associação França-Timor, que assinalou hoje o seu 9.º aniversário, em colaboração com o grupo parlamentar de amizade França-Timor-Leste.